segunda-feira, outubro 17, 2011

Ionização

Ionização

Preso na decomposição orgânica do nada
Em liberdade no vazio astronómico de tudo,
Ofuscado pelo brilho da sabedoria, essa espada
De que os miseráveis se defendem com ignorância, esse escudo;

Felizes aqueles que julgam ter as respostas
Convencidos de que nada mais há para ser sabido,
Tristes os que sabem que só têm amostras
De coisas que preferiam pensar não haver para ser conhecido;

Certezas ninguém as pode tomar por certas
Um oxímoro talvez mas talvez também sensato,
Uma geração informada com desinteressados alertas
Para a miséria que voa sobra nós, e eu intacto;

E eu intacto... relativamente vivo e são
Roboticamente comandado por quem tem o mundo,
Eles são o átomo e eu sou um electrão
E todos juntos moléculas instáveis
Formando um cancro neste planeta moribundo;

E não consigo compreender o meu lugar
Saltando de orbital em orbital,
Com a raiva e desejo de me querer ionizar
A crescer e contaminado pela a aceitação
De que sou apenas mais um comum mortal.

Mas sempre distante do núcleo,
Dos mutiladores do sonho.

sábado, outubro 08, 2011

Nestes dias defuntos...

Nestes dias defuntos...

Nestes dias defuntos
É só mais um passo que dou,
Por caminhos disjuntos
Questiono-me quem sou,
Sempre seguindo um trajecto
Que não é e nunca foi o meu,
Mas lamentos inúteis sou um objecto
De quem o mundo apodreceu;

Cegado por um indesejado clarão
O branco de todos os cenários,
O vazio dos dias nos calendários
Talvez melhores dias virão...

Nestes dias defuntos
É só mais um passo que dou,
Cabeça em complexos assuntos
Que disseram meus, mas quem eu sou?
Grito no poço do oblívio
Por um botão para avançar estes dias,
E suspirar de profundo alívio
Encontrar não mais agonias...

Preciso de um mapa para o labirinto
O labirinto da pura ilusão,
Mão de Deus que me esmaga o coração
É por isso que ainda vivo não minto...

É por isso que ainda estou perdido
É porque descobri a verdadeira saída,
Persigo a melodia para encontrar a minha vida
E decerto tirarei a bala que me deixou abatido,
Sorrindo para um astro que me guia
Para o teu sorriso que encontrarei um dia!

E até esse dia chegar,
Nébulas de sonho para contemplar.

quinta-feira, setembro 29, 2011

Efeito Sereia

Efeito Sereia

Nunca perversamente abordado
Porque quem jamais desejara,
Tão pouco gravemente chocado
Mas sorriso de besta jaz na sua cara;

Somente o gosto de rosas despetalar
Demasiado jovens para serem despidas,
Um prazer de nas mãos as esmagar
Sujando-as de escarlate e do fim de vidas;

Talvez à crueldade se entregou
Por um sonho que lhe proibiram,
Mais, uma sereia para quem navegou
E só ao embater num rochedo se viram;

Um monstro criado pela desilusão
A ilusão que descansa lânguida numa pauta,
7 ou 6 cordas agarram o seu coração
Pela nébula dos sonhos, um cosmonauta...

Não... não é nem nunca será um monstro...
Só mais um proletário para sobreviver,
Sodomizado pelos que fizeram o mundo
Caminhando de costas para o verbo morrer.

quinta-feira, setembro 22, 2011

Um fraco...

Um fraco...

Sinto a morte nas nozes dos meus dedos
Loucura que me assola para a libertar,
Raiva, uma descarga eléctrica sem medos
Ira, uma árvore cujo fruto é o seu esgar;

Uma colher tiro do boião da fúria
E uma pitada cuidada de forte ódio,
Desdém para com a inútil lamúria
Cuspindo em feridas cloreto de sódio;

Morte! Eu te liberto desta tua prisão!
Forço a tua jaula que embate no meu oponente,
Rasga-se a pele e tal águia voas então,
Caçando a tua presa tão elegante e vorazmente!

Sirvo com os punhos um refeição de cicuta
Paciência, uma bonita flor que morreu,
No seu funeral uma tragédia, tão abrupta
Mas o cadáver... o corpo... é o meu...

Olhei para mim, pele, ossos... morto...
Um fraco, os fracos não matam ninguém...

segunda-feira, setembro 12, 2011

Bandeira Vermelha

Bandeira Vermelha

Aí vêm as ondas violentamente
Como que zangadas e a gritar,
Engolindo toda a gente
Que no seu caminho se cruzar;

Cheio de ódio o mar destruindo
Com vigor, firmeza e vaidade,
Vejo a enorme falésia ruindo
E o ócio das pessoas da cidade;

Possuído de raiva vem o mar,
Que a um ataque de leões se assemelha
Sendo os descuidados a presa a caçar,
Ignorando uma ofuscante bandeira vermelha.

terça-feira, setembro 06, 2011

O Regresso do Frio

O Regresso do Frio

As noites deixaram de ser quentes
Para anunciar que o Outono está a chegar,
Vão embora os pássaros a cantarolar
Mas é doce o frio, não o sentes?

Uma percussão nos meus pés, as folhas caídas
"Já chegou!" exclamo com felicidade,
E imagino melodias bonitas cheias de suavidade
Enquanto caminho por entre as árvores despidas;

Curiosamente este ano maior o frio
O gelo da solidão em mim se derrete,
Pois vou tê-la por perto num dia de entre 7
Mais forte o frio mais forte eu sorrio;

Sinto saudades de vestir uma camisola pesada
O desespero de chegar a casa para me aquecer,
Pôr a conversa em dia com quem tanto quero ter
É no frio que estou bem, preferência errada?

terça-feira, agosto 30, 2011

Em Dezembro te espero...

Em Dezembro te espero...

Moribundo de tristeza caminho para o abismo
Em linha recta mantenho o passo tremulento,
O frio que sinto sem ti é-me um sismo
Vens parar-me e aquecer-me contudo o tempo é lento;

És o astro humano que derrete o gelo em meu redor
Leva-me numa curva para longe desta recta suicida,
Mostrando-me, fazendo-me ver e sentir amor
Dando cor à foto monocromática que resume a minha vida;

Vem em Dezembro ser a lareira do meu coração
Molécula formada por dois átomos, os nossos lábios,
Perdidos os dois nos vales da mais pura paixão
Algo incompreensível até para os mais sábios;

Vem mudar por favor para um acorde maior
Esta melodia obsoleta que não consigo cessar,
Rasga-me a pele da alma sabê-la de cor
O ritmo dá-lhe meu coração que contigo vai acelerar;

Pintaria apaixonadamente o teu retrato
Mas infelizmente não tenho esse talento,
Não deixas de ser a musa de cada verso que trato
Dezembro vem depressa ou de saudade rebento;

Um "espero por ti" resplandece neste verso
Oh tu, que és a Rainha do meu Universo...

segunda-feira, agosto 22, 2011

Maré de Sorte

Maré de Sorte

Caminhando à beira-mar em desolação
Surpreendido sou por uma onda forte,
Afogando-me já sem ar em nenhum pulmão
Vivo ainda à deriva numa maré de sorte;

Com escárnio olhei para tudo o que fiz
Duvidando do meu valor em tudo,
Mas diante do meu sobrepujante nariz
Vejo que nem todo o mundo ficou mudo;

O Mestre mandou-me então escrever
Numa vazia folha ao lado da sua,
Para conjurar um astro a nascer
Com a classe de um poeta de rua;

Foi o Mestre que me lançou a onda
Que puxou os meus versos para Norte,
Para os examinar com a sua sonda
E chamo-lhe pois uma Maré de Sorte;

Assim damos uma devida continuação
Abrindo o coração e borrando papel,
O que tão boa fama deu a esta nação
Ora sobre uma morgue ora sobre um bordel!

domingo, agosto 14, 2011

O Homem que tem o Mundo...

O Homem que tem o Mundo...

Existe um senhor tecelão de véus
Que veste o mundo com a sua criação,
E vê a nossa miséria dos céus
E goza a nossa superficial visão,
Que ele próprio nos ofereceu
Ocultando a verdade sobre tudo,
E em ganância seu poder cresceu
Loucamente sorridente e mudo;
O Homem que possui o mundo
O detentor de toda a verdade,
Não abre os braços nem por um segundo
Pois neles a tem presa uma miríade,
Uma miríade de coisas factuais
Que levariam o mundo ao caos e loucura
Assim não o revela ao comum dos mortais,
E ninguém sabe quem ele é e porque nos tortura;
A maioria nem sabe sequer que existe
E os que julgam que ele existe nem têm a certeza,
Mas salva o ignorante de se sentir triste,
E é o Rei sem que ninguém bajule a sua alteza;
Joga xadrez com a humanidade
Emprega muita dor e esporádico prazer,
Acaricia a mais verdadeira verdade
A única que mais ninguém irá saber.

terça-feira, agosto 02, 2011

Alucinação

Alucinação

Embrulhado em pânico e sonolência
Com um laçarote de desejo de morte,
Desconfortável com a quase total dormência
Ao que penso ser realidade perdi o Norte;

Despedaço-me num milhão de dimensões
Vejo o mundo real através de um buraco,
Dentro de uma esfera de sonhos sem razões
Procuro sair deste lugar hostil e opaco;

Sinto-me a ondular para o infinito
Repito um milhão de vezes um gesto que só fiz uma vez,
Descontroladamente com o nada me irrito
A garganta implora por água suficiente para um mês;

Cada minuto parece-me um ano febril
Tenho medo de me magoar mesmo sem nada sentir,
Sou sugado para a minha alucinação número mil
Esqueço tudo e deixo-me dormir;

Deixo-me dormir com o desejo de acordar em lucidez
Desejo concretizado relembro a experiência que a sei de cor,
Reflicto sobre a totalidade do real inúmera vez
Esta realidade é uma merda mas cheira melhor.